Políticas de saúde
Mais uma razão para enaltecer a amamentação
Riscos de o bebê morrer pelos prejuízos da falta do leite materno são 67 vezes maiores do que o de falecer pela infecção de Covid-19
Mais um estudo comprova o poder do aleitamento materno. Desta vez o alerta fica por conta dos
benefícios de manter a amamentação quando a mãe testa positivo para o coronavírus. Os riscos de recém-nascidos e bebês até um ano de idade morrerem pelos prejuízos da falta do leite materno são 67 vezes maiores do que o de eles não resistirem às complicações da Covid-19. A orientação, portanto, é para que as mulheres não deixem de amamentar ainda que estejam infectadas.
Os resultados estão expressos em artigo publicado na revista científica Lancet, uma das mais conceituadas do mundo. E o autor do trabalho que reuniu 11 pesquisadores também é de peso: Cesar Victora, integrante do Centro de Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e uma das maiores autoridades mundiais sobre amamentação. "Não há nenhum caso comprovado de transmissão do coronavírus pelo leite materno", afirma. E enfatiza: "Mesmo que houvesse uma transmissão, o risco de morte do bebê devido a não mamar seria quase 70 vezes superior".
Os dados tomam como base o levantamento realizado em 119 países de baixa e média rendas - como o Brasil. As nações de renda alta não fizeram parte das análises.
Uso de máscara e limpeza das mãos deve permanecer
Informações coletadas em três etapas da Epicovid19, no Rio Grande do Sul, reforçam: 35% dos familiares dos participantes da pesquisa que haviam testado positivo para anticorpos Sars-CoV-2 também tiveram diagnóstico confirmado para Covid-19. Ou seja, a pesquisa destaca: a contaminação dos bebês pode ocorrer por exposição a cuidadores infectados, mas assintomáticos, em casa, em unidades de saúde ou na comunidade. Para obter a proteção completa do nenê, portanto, ele deveria ser retirado do ambiente, o que, na prática, é improvável.
E mais: "Assim como quando nos vacinamos recebemos 'pedaços' do vírus, através do leite materno da mãe infectada, a criança também terá contato com 'pedaços' do vírus, o que propiciará que ela comece a desenvolver imunidade sem ficar doente", explica o coordenador internacional da Pastoral da Criança, o doutor em Saúde Pública, Nelson Arns Neumann.
E, ao conversar com o Diário Popular lembra que a mãe deve manter os cuidados básicos como limpeza das mãos e uso de máscara, já que sem o Equipamento de Proteção Individual (EPI) o bebê ficaria exposto a uma carga viral mais alta, o que poderia ser mais perigoso.
Saiba mais detalhes do artigo científico
Os pesquisadores basearam-se em 25 estudos realizados na América Latina, Ásia, Oceania e África.
A abordagem foi feita com base nas evidências disponíveis: artigos já publicados em revistas de alto conceito. O objetivo era equilibrar os riscos associados à infecção viral com o efeito na sobrevivência infantil, na saúde ao longo da vida e no desenvolvimento da criança.
As considerações incluíram a incidência entre as mães, a duração da infecciosidade, a viabilidade de identificar a infecção em tempo hábil, os riscos de transmissão do novo coronavírus e os efeitos da doença em bebês, juntamente com os riscos de mortalidade e saúde decorrentes da separação e não da amamentação.
O grupo de 11 pesquisadores ainda considerou o risco de exposição ao vírus, associado ao contato próximo e à amamentação, e comparou esse risco com os riscos de nenhum contato entre mãe e bebê e de evitar ou interromper a amamentação (e uso de substituto do leite materno).
Era urgente: Não havia tempo de esperar novos estudos para alertar a comunidade científica e a população, pois as mortes já poderiam estar acontecendo. "O que se conhece já é suficiente para determinar que a amamentação, mesmo com a mãe infectada para Covid-19, é muito mais segura que parar o aleitamento".
"É um momento único, sagrado"
A pequena Aurora Fiss Schneider foi ao peito pela primeira vez na madrugada da terça-feira, 9 de junho de 2020, instantes depois de nascer. E o aconchego para corpo e alma nunca mais cessou. Hoje, com 10,5 quilos e um ano e dois meses, Aurora segue agarrada ao peito. E no que depender do desejo da mãe Luiza Rodrigues, 18, a amamentação se estenderá, pelo menos até os dois anos de idade.
"Sempre quis muito que ela mamasse. É uma conexão muito linda", resume. A jovem virou militante do aleitamento materno. Ao identificar alguma mãe com dificuldades ou desanimada com os primeiros dias da amamentação, trata de dar dicas e falar nos benefícios - com o entusiasmo de quem quer estudar Medicina. "Ela nunca teve nada, nem gripe ou resfriado", conta.
Aos oito meses de idade, quando Aurora contraiu o novo coronavírus do avô, o organismo também reagiu bem. "A nutrição e a imunidade passadas pelo leite materno são especialmente importantes para vencer também o coronavírus", reitera o pesquisador Nelson Arns Neumann. Sem falar nos laços que se fortificam, entre troca de olhares. "É um momento único, sagrado", destaca Luiza.
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